Por que continuo servindo no Projeto Calçada

Por que continuo servindo no Projeto Calçada

Um dos versículos mais comoventes da Bíblia para mim está em Gênesis 21:17: “Deus ouviu o choro do menino aí onde ele está.” Esse texto relata o momento em que Deus ouve o choro de Ismael no deserto.

Quando penso nesse versículo, lembro que muitas crianças e adolescentes ao redor do mundo também enfrentam seus desertos. Assim como Ismael, eles passam por momentos de perda, rejeição, medo, abandono, violência e solidão.

É por elas que continuo no Projeto Calçada. Acredito que nenhuma criança deveria carregar sua dor sozinha. Ao ouvir o choro de Ismael, Deus nos revela Sua sensibilidade diante do sofrimento humano e nos mostra que está atento para socorrer os que sofrem. Com Ismael, Ele se fez presente por meio do anjo que falou com sua mãe e abriu seus olhos para que visse a fonte de água que lhes daria vida quando estavam prestes a morrer de sede. E assim nasceu o Projeto Calçada, para ser a resposta de Deus para crianças, adolescentes e organizações no cuidado integral que elas precisam.

Deus continua se fazendo presente por meio de organizações comprometidas que dedicam seus esforços para cuidar delas. Ele desperta pessoas cheias de compaixão e amor para ouvi-las com respeito e acolhimento, oferecendo novas perspectivas para suas histórias por meio das verdades e da esperança encontradas nas histórias da Bíblia. Essa rede de cuidado se fortalece ainda mais através de voluntários e apoiadores, e juntos promovemos bem-estar, alegria e restauração emocional.

Continuo trabalhando no Projeto Calçada porque desejo fazer parte do que o Senhor está realizando na vida de tantas crianças e adolescentes. É uma pequena contribuição para que elas encontrem acolhimento, sintam-se valorizadas e sejam encorajadas a ressignificar suas experiências. Assim, podem desenvolver seu potencial, construir relacionamentos saudáveis e fazer escolhas que impactem positivamente seu futuro.

Os 26 anos do Projeto Calçada representam credibilidade, experiência e um compromisso contínuo com a transformação de vidas. O que começou como uma visão tornou-se uma rede de parceiros que, juntos, levam esperança, cuidado e oportunidades a milhares de crianças e adolescentes.

Parabéns, Projeto Calçada, pelos seus 26 anos de história! Que Deus continue usando esta missão para ouvir o choro de muitas crianças e adolescentes e revelar-lhes Seu amor, cuidado e esperança.

Tem lugar para você, venha fazer parte do que Deus está realizando nas vidas!

Cleisse Andrade

Por que continuo aqui

Por que continuo aqui

Willian – o agente de Transformação

Willian – o agente de Transformação

Willian chegou até nós em 2021 para receber refeições e cestas básicas durante a pandemia. Mas foi em 2022 que vimos um menino amante de Jesus e de sua transformação


O ano era 2021 quando Willian chegou até nós. Através das ações que realizamos durante a pandemia, com a entrega de cestas básicas e refeições na comunidade em torno ao projeto, a mãe de Willian nos conheceu. Assim que as atividades retornaram pós pandemia, a mãe do menino o matriculou, junto com suas irmãs, para as atividades de esporte e dança.

O tempo foi passando e em 2022 fomos conhecendo Willian de perto. Um menino de apenas 10 anos que gosta de estudar e é obediente. Possui uma personalidade alegre e gosta de falar. No entanto, um dia Willian chegou e observamos que ele estava triste. Além disso, quase não falava, estava muito quieto para ser o Willian de sempre. Então, percebi uma oportunidade para o convidar a participar do aconselhamento da Bolsa Verde.

Durante aquele encontro, o menino me descreveu a tristeza em seu coração. Relatou que seu pai possui o vício em bebida alcoólica. Todos os dias o mesmo chegava alcoolizado em casa. Isso gerava brigas entre seu pai e sua mãe. Willian chegou a dizer que sentia medo e angústia com tudo o que acontecia. Principalmente, porque ele já havia perdido um familiar por causa do vício e ele não queria que isso acontecesse com seu pai. Pude então apresentar as histórias da Bolsa Verde e durante aquele momento, o menino pôde descansar.

Ao término do aconselhamento era notória a diferença em Willian. Ele estava diferente, mais tranquilo e aliviado. Ao orar, ele pediu por sua família, pedindo para que Jesus cuidasse de seu pai e chegou a declarar que agora sabia que Jesus estava cuidando de sua família, “ele está cuidando do meu pai.”

Passado o aconselhamento, Willian continuava a demonstrar mudança de comportamento para melhor. Ele começou a fazer a diferença até mesmo dentro do projeto! Foi então que decidimos convidá-lo para um discipulado bíblico. No discipulado ele compreendeu sobre o que era batismo e pediu para conversar com o pastor pois queria se batizar. No dia do aniversário do projeto, 5 meses após seu aconselhamento com a Bolsa Verde, Willian se batizou. Foi um momento muito emocionante para todos nós. Vimos Willian, toda a sua família, inclusive seu pai, chorando ao ver o batismo do menino.

Desde então, Willian se tornou agente de transformação. Sua mãe compartilhou que todos os dias seu filho lê a bíblia e compartilha um versículo com os seus pais. Ele tem convidado as crianças da comunidade para irem até o projeto. Esperamos que todas venham!

O Projeto Calçada tem sido uma ferramenta preciosa na restauração e cura das crianças, adolescentes e educadores em nossa organização. A cada aconselhamento percebo a transformação na vida dos que são aconselhados, eu também vejo a diferença acontecendo na vida das crianças e adolescentes que têm um tempo de escuta com a Bolsa Verde.

Contribuição de uma educadora do Projeto Calçada.

*Nome fictício para proteger a identidade da criança.

E quando os adultos duvidam?

E quando os adultos duvidam?

É muito comum as pessoas se surpreenderem com a metodologia do Projeto Calçada; alguns até duvidam de que os resultados possam ser mesmo tão imediatos. Esse ano tivemos esse questionamento entre os participantes de uma capacitação presencial que aconteceu no Rio Grande do Norte, a primeira depois de uma pausa na pandemia.

Durante o momento teórico, dois educadores em capacitação achavam que não era necessário seguir tão à risca cada passo da metodologia. Mas a ênfase dada durante o processo de aprendizagem do grupo foi a de que essa metodologia foi muito bem estudada, foi testada, e nesses 22 anos de Projeto Calçada ficou comprovada a eficácia do resultado que ela tem trazido na vida dos aconselhados. 

Houve um momento muito especial na capacitação, que foi o aconselhamento da primeira criança, enquanto o educador era supervisionado no uso da Bolsa Verde. 

Conhecendo a realidade do local, os participantes achavam que esse adolescente, que seria o primeiro a ser aconselhado, nada ia falar, nada ia comentar, por ser um menino muito calado.

Já contrariando a expectativa, o adolescente César*, de 13 anos, ficou muito feliz ao ser recebido para o aconselhamento. Seguindo as etapas da metodologia, chegou o momento em que o educador lhe pediu para que pensasse em uma imagem com a qual ele podia se comparar, diante do que sentia quanto ao abandono do pai. César falou que se comparava a ‘uma árvore’.  Então ele fez o desenho e explicou:

“Eu me sinto uma árvore oca, seca e solitária, porque todo mundo passa e bate em mim e eu fico preso. Não posso sair, não posso falar nada, eu só apanho e só apanho”.

Isso impactou todo o grupo. O educador contou as histórias de Jesus para César. As histórias revelavam o amor de Jesus, e já neste momento foi visível a transformação do menino. Ele ficou tão atento às histórias da Bíblia e ao que o educador falava sobre Jesus e o seu amor pelas crianças. 

Ao final desse aconselhamento com a Bolsa Verde, o educador lhe perguntou como ele se sentia depois de ouvir que Jesus é seu amigo e que o ama, e se poderia pensar em uma imagem com que pudesse se comparar para explicar como se via agora. O grupo em capacitação ficou na expectativa para saber que imagem César escolheria para se descrever. Foi aí que ele desenhou uma árvore igual à anterior. Entretanto, César foi desenhando frutas, colocou o sol, decorou aquele desenho com pássaros e disse:

“Agora eu me sinto assim, uma árvore frondosa, iluminada pelos raios do sol e alimentada pela chuva, cheia de frutos e feliz”.

Esse foi um momento de visível transformação, tanto porque César foi ouvido, quanto porque ele já não se sentia mais aquele adolescente imobilizado, sem poder se defender. Era notório que ele percebia que tinha vida, pois suas expressões físicas transmitiam a alegria que ele esboçava ao final.

O aconselhamento do César foi tão impactante, que o próprio grupo e as pessoas que estavam de certa forma questionando a eficiência da metodologia, ficaram emudecidas vendo como aconteceu uma transformação de uma forma tão rápida, quase imediata. É assim, quando  a  gente insere  a  Palavra de Deus  para  ajudar a criança a ressignificar sua própria história, é emocionante e transformador. Os membros da equipe dessa organização, que atende crianças sertanejas e quilombolas, foram fortalecidos na fé quanto à ação poderosa do Espírito Santo e das histórias da Bíblia. Também estão mais sensíveis que quando damos um tempo de qualidade individual à criança ela pode abrir seu coração e ser curada. 

Colaboração de uma Multiplicadora do Projeto Calçada

*Nome fictício para proteger a identidade da criança.

“Não tenho medo, porque eu creio em Deus”

“Não tenho medo, porque eu creio em Deus”

A missionária Hilda Dias da Silveira, que atua na  ilha do Bananal, aldeia Macauba localizada em Tocantins/TO, compartilhou um pouco da experiência de atuar com crianças indígenas. 

Iniciei o trabalho na região no dia 20 de janeiro de 1983, pois ouvia muito sobre o trabalho ali e decidi ser missionária naquele lugar. A primeira dificuldade que enfrentei foi o desconhecimento da cultura, costumes e a língua do povo.

Hoje conhecendo mais do povo Carajás, da aldeia onde atuo, a dificuldade é a falta de missionários, visitas raras para ajudar no trabalho. Eles  são um povo que apreciam visitas.

O trabalho com as crianças

O trabalho com as crianças têm bastante relevância pois no costume Carajá as crianças são o bem uterino. Para iniciar o trabalho com as crianças indígenas deve-se conhecer a cultura, o costume e língua do povo.

Quando eu já me comunicava bem com as crianças, contei a elas a respeito do poder de Deus e comecei a falar sobre ressurreição. Contei que Deus é poderoso, que não há poder igual o de Deus, não há  um ser igual a Deus. Como  Carajás, eles têm medo da alma daquele que morre, pois acreditam que quando a pessoa morre, após três dias ressuscitam e voltam às casas, com isso ficam sempre atemorizados. Então falei para as crianças que após o falecimento de alguém, não precisavam ter medo do morto, porque o morto não volta. Expliquei o poder de Deus e falei que nós temos um inimigo, como eles já conheciam a história eu apenas relembrei a história do inimigo que desafiou a Deus e foi lançado no lago de fogo e que esse inimigo quer fazer de tudo para destruir o homem “para o homem ir para o lago de fogo junto de satanás e não ficar com  Deus.” 

Disse que esse é o desejo dele, que veio para matar e destruir o que Deus criou, o homem que Deus ama tanto. E aí falei que ele engana as pessoas, então quando alguém morre, ele engana fazendo com que eles ouçam barulhos e vozes para que sintam medo. Então falei que eles não precisam acreditar em fantasmas, que eles chamam na linguagem deles de uni, falei que o uni, o satanás,  os engana, fazendo barulhos, derrubando coisas… Esses são relatos que me contam  quando morre alguém, eu disse que é o inimigo das nossas almas que faz tudo isso para amedrontá-los. 

Passaram-se alguns dias e eu encontrei um menino com seus 11 anos de idade pescando lá longe no rio e sozinho na canoa. O nome dele era Melque* e eu fui até ele e falei: Melque, você está sozinho aqui no rio? Sem nenhuma companhia, nenhum amiguinho? Pescando.. você não tem medo? Quando eu falei medo eu pensei em animais peçonhentos, ou até mesmo aquele peixe piranha que corta o dedo da pessoa, de repente a pessoa pesca e pode dar um corte, esse tipo de medo. E ele me respondeu: Não, Hilda, eu não tenho medo, porque uni não existe… é satanás que quer enganar as pessoas e eu não tenho medo, porque eu creio em Deus. Achei isso muito bonito e interessante, porque ele entendeu muito bem a palavra de Deus.

*nome fictício para proteger a criança

Hilda Dias da Silveira,
missionária na Aldeia Macauba 

Esteja em oração pela vida dos missionários que atuam em aldeias indígenas para que mais crianças e adolescentes sejam livres do medo. 

“Parece que Deus está me chamando para estar perto dele”

“Parece que Deus está me chamando para estar perto dele”

A violência doméstica é um dos problemas mais graves para as crianças nos países latino-americanos. Na Bolívia, crianças também são maltratadas por seus familiares, pais, avós, irmãos, tios. É comprovado que situações traumáticas causadas por pessoas amadas por crianças afetam seriamente a sua identidade.

Na família de Adán, os maus-tratos físicos eram constantes. Ele tem 13 anos e contou à educadora do Projeto Calçada que o aconselhou com a Bolsa Verde, que ver sua avó bater em seus irmãos lhe causou muita raiva, indignação e aborrecimento. Se pudesse, ele “fugiria para um lugar distante, como um avião, para não ver o que
estava acontecendo.”

Às vezes, os adolescentes se tornam violentos e/ou agressivos e não podemos imaginar o que está por trás desse comportamento, que eles expressam apenas para tentar aliviar a dor que carregam dentro de si.

No aconselhamento com a Bolsa Verde, mostramos à criança ou adolescente quatro cartões com imagens e textos bíblicos para ajudá-la/o a aplicar a mensagem que Deus está falando aos seu coração. Adán escolheu o cartão que chamamos de “Mãos Protetoras”, e disse: “Parece que Deus está me chamando para estar perto dele”. A educadora concordou com Adán e confirmou que Deus o está chamando mesmo, para lhe dar alívio e paz.

No final do aconselhamento, o educador perguntou ao adolescente se ele poderia escolher uma imagem para descrever como ele se via ao ouvir sobre o amor de Jesus. Adán respondeu:

“Agora sou forte como um leão!”

Dias depois do aconselhamento, a mãe do Adán disse que notou mudanças na atitude dele, percebendo que ele está muito mais feliz, sorridente, e mais sociável com seus amigos.

A igreja está aconselhando a mãe e a avó de Adán para ajudá-las a lidar melhor com os filhos, e já está organizando um encontro com os membros da família para conversarem sobre a educação não violenta.

*O nome da criança é fictício, para proteger sua identidade (artigo 17 da Lei n. 8.069/90)

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