Quando a esperança encontra espaço para florescer
O terremoto que atingiu as cidades das regiões de La Guaira e Aragua, na Venezuela, em 24 de junho, transformou completamente a rotina de milhares de famílias. Deixou perdas irreparáveis, destruiu lares e trouxe ao coração de muitas crianças e adolescentes um turbilhão de sentimentos diante da perda de familiares, da insegurança e da mudança repentina em suas vidas.
Em meio a tanta dor, porém, o socorro começou a chegar. E, com ele, vieram não apenas recursos para amenizar as necessidades mais urgentes, mas também gestos de cuidado capazes de levar consolo, esperança e a certeza de que elas não estavam sozinhas.
Entre julho e agosto, foi realizado o projeto pedagógico de acolhimento e reconstrução junto às crianças e adolescentes que permaneciam nos refúgios. Em parceria os batistas brasileiros e venezuelanos levantaram todos os recursos econômicos e mobilizaram uma equipe comprometida e dedicada para atender as crianças. O Projeto Calçada foi convidado a fazer parte dessa iniciativa, levando um cuidado ainda mais pessoal: a oportunidade de cada criança ser ouvida, acolhida e encorajada.
Durante esse período, 19 crianças foram atendidas individualmente com a Bolsa Verde por três educadores voluntários do Projeto Calçada: Ruth e Enectaly Ramirez e Surilma Guacheque.
A realidade nos refúgios é temporária, mas extremamente difícil. Para as crianças, significa viver em meio a mudanças que estão muito além de sua capacidade de compreender ou controlar. Surilma relatou:
“Diante das novas realidades enfrentadas pelas famílias venezuelanas em La Guaira — que passaram de morar em apartamentos confortáveis para viver em barracas — elas agora se encontram sem água ou itens básicos necessários para uma família. No setor de El Morro, as crianças viviam com medo de que as paredes desabassem, enquanto no setor de Playa Verde — uma das áreas mais atingidas, onde todos viviam em barracas — as pessoas estão tendo de enfrentar filas para conseguir água e comida.”
E foi justamente nesse cenário de perdas e incertezas que pequenos momentos de esperança começaram a florescer. As crianças chegavam aos encontros com grande entusiasmo para jogar a Bolsa Verde e descobrir o que Jesus lhes queria dizer por meio das histórias bíblicas. Por alguns instantes, o cenário ao redor dava lugar a um espaço seguro, onde podiam brincar, conversar, sorrir e simplesmente ser elas mesmas.
Ao final dos encontros, algumas perguntavam aos educadores:
“Quando você vai voltar?”
“Você vem amanhã?”
Essas perguntas diziam muito. Revelavam que, naquele momento, elas haviam encontrado algo precioso: alguém disposto a estar presente e ouvir sem pressa.
19 crianças e adolescentes abriram o coração e compartilharam dores que carregavam desde o terremoto. Medo, raiva, tristeza, solidão, confusão e incerteza foram alguns dos sentimentos revelados — emoções que expressavam o turbilhão provocado por tudo o que haviam vivido.
Mas algo começou a mudar ao longo de cada encontro. Enquanto ouviam as histórias bíblicas que falavam de amor, cuidado, proteção, esperança e novas possibilidades, aqueles sentimentos começaram, pouco a pouco, a dar espaço para outros: alegria, calma, paz e a certeza de não estarem sozinhos, sentimentos que as crianças disseram estar sentindo ao terminar o aconselhamento.
Foi o que aconteceu com Matias*, de 9 anos. Ele disse que durante o terremoto ficou apavorado e não sabia para onde correr. Mas ao ouvir que Jesus tem poder para tirar o medo e que pode cuidar dele em qualquer circunstância, Matias orou com confiança, pedindo que Jesus protegesse sua família. Ao final do encontro, seu coração já estava diferente. Matias disse: “Agora que eu tenho Jesus sempre por perto, eu me sinto feliz.”
Essa frase resume, de maneira simples e profunda, o que aconteceu em cada um daqueles 19 encontros: momentos de escuta, acolhimento, consolo e esperança. 19 oportunidades para uma criança perceber que sua dor importa, que sua voz pode ser ouvida e que ela não precisa enfrentar sua dor sozinha.
Em cada aconselhamento, as crianças foram incentivadas a conversar com Jesus e descobriram que podem falar com Ele sobre tudo o que sentem, porque Ele está atento às suas necessidades e cuida delas.
E, embora as circunstâncias ao redor ainda não haviam mudado, algo dentro delas começou a mudar. A autoestima foi fortalecida. E a esperança começou a nascer novamente.
O terremoto deixou marcas que não podem ser apagadas, mas, em meio à dor, também foi possível plantar sementes de esperança. Cada abraço, cada escuta, cada oração e cada história compartilhada ajudaram essas crianças a se lembrarem de que sua história não termina naquilo que viveram. Enquanto famílias e comunidades seguem reconstruindo suas vidas, o Projeto Calçada continua acreditando que cuidar do coração de uma criança hoje pode transformar a maneira como ela enfrentará o amanhã. Porque, mesmo quando tudo ao redor parece ter desmoronado, a esperança pode permanecer de pé — e, para essas crianças, essa esperança tem um nome: Jesus.
*Nome alterado para preservar a identidade da criança.
