Amar é combater o trabalho infantil

Amar é combater o trabalho infantil

“Depois disso, algumas pessoas levaram as suas crianças para Jesus pôr as mãos sobre elas e orar, mas os discípulos repreenderam as pessoas que fizeram isso. Aí ele disse: — Deixem que as crianças venham a mim e não proíbam que elas façam isso, pois o Reino do Céu é das pessoas que são como estas crianças. Então Jesus pôs as mãos sobre elas e foi embora. ” Mateus 19:13-15 NTLH

Certa vez eu tive a oportunidade de ver um vídeo desses que aparecem sugeridos em nossas redes sociais. O vídeo, realizado por uma emissora de TV brasileira, mostrava um experimento social chamado “Esqueceram de Mim”. Nele duas crianças uma negra e uma branca foram “esquecidas” sozinhas em uma calçada bastante movimentada que aparentava ser de um grande centro urbano, simulando estarem perdidas. O experimento buscava medir o grau de atenção/cuidado que cada uma das crianças receberia.

Em momentos diferentes cada uma das meninas foi deixada sozinha paradas em determinado lugar, monitoradas apenas por rádio e câmeras da equipe. A criança negra ficou quase uma hora sem ser notada pelas pessoas que passavam. A criança branca ficou menos de um minuto sozinha no local marcado. Muitas pessoas passavam e perplexas questionando como essa criança poderia estar ali sozinha! E rapidamente abordaram a criança branca e prestaram assistência. Exatamente no mesmo lugar que a criança negra ficou.

Talvez você tenha ficado extremamente triste com esse relato e se pergunte: como a nossa sociedade chegou a essa situação? Infelizmente situações como a que foi demostrada no experimento acontecem cotidianamente, a sociedade brasileira naturaliza a subalternização das crianças e os adolescentes negros todos os dias. É possível perceber certa “tranquilidade” de grande parte das pessoas diante dos quadros de exploração infantil nos grandes centros urbanos. E é triste constatar que a maioria dessas crianças são negras.

É exploração Infantil

Quantas balas ou doces você já comprou de uma criança ou adolescente negro nas noites ou madrugadas em sinais de trânsito? Em alguma dessas vezes você se perguntou o que aquela criança ou adolescente estaria fazendo ali, vulnerabilizada, correndo riscos? Muitos acionarão a resposta covarde e hipócrita: – É melhor estar vendendo bala do que roubando! Ignorando completamente que o fato de uma criança ou adolescente estar “trabalhando”em tais condições é exploração infantil. A maioria dessas crianças e adolescentes são negros e passam desapercebidos de nossa atenção e cuidado. Essa situação acontece de forma cotidiana em nosso país, a maioria de nossas crianças negras são invisibilizadas, alijadas de seus direitos e de condições de vida dignas.

Jesus e as crianças

Jesus é enfático em Mateus, capítulo 18, versículo 5 quando diz que ao recebermos uma criança nós estaríamos recebendo a Ele. Diante dessa fala poderosa de Jesus nos resta pedir perdão a Deus pelas crianças negras e adolescentes negros que rejeitamos, “apagamos” todos os dias.

Que atitudes devemos ter para mudar esse quadro? O primeiro passo é a conversão, é necessário mudar o olhar, libertar-se do pecado do racismo e da negligência na luta contra a exploração infantil. É urgente tomar posição e organizar atividades e eventos nos espaços em que você atua para falar sobre esse pecado que tem danificado a vida de milhares de crianças e adolescentes no Brasil e no mundo. Outro passo é buscar organizações que atuam no campo da proteção e defesa de direitos das crianças e adolescentes e na construção de relações sociais antirracistas e oferecer seu trabalho voluntário.

O desafio dos cristãos diante da defesa dos direitos das crianças e adolescentes. Acredito radicalmente no papel das igrejas, movimentos e organizações cristãs na defesa dos direitos das crianças e dos adolescentes entendo que é necessário engajar-se, falar e agir. Não é possível que tantas violações de direitos das crianças e adolescentes aconteçam em um país majoritariamente cristão!

É imprescindível que as igrejas amadureçam teologicamente para esse desafio. Não podemos ignorar que o a Bíblia diz sobre as crianças e o papel delas no Reino de Deus. Não dá para esperar mais, ou a Igreja toma posição pela defesa da vida das crianças e adolescentes ou estará rejeitando Jesus de Nazaré. Cada igreja é uma embaixada do Reino de Deus na terra e precisa estar conectada com esse desafio, sem medo e sem recuos de base moralista, se negando diante daquilo que também é sua responsabilidade, é urgente assumir a causa.

O que é possível fazer?

Orar, participar e trabalhar. Nós cristãos temos muitas dimensões em que podemos nos envolver na promoção do bem viver e dos direitos das crianças e dos adolescentes. “Abrir os olhos” considerar a realidade das crianças e dos adolescentes negros, que são maioria nesse país, não tolerar mais que uns tenham direitos e outros não. Jesus é enfático em dizer que bem-aventurados são os que têm fome de justiça. Jesus também vem nos dizer que das crianças, e porque não dos adolescentes também, é o Reino dos céus. Jesus não diz que o reino pertence à determinadas crianças e adolescentes e às outras não, Ele diz que o reino é delas, ou seja, de todas as crianças e por que não dizer de todos os adolescentes.

Eu e você podemos atuar em muitas frentes e de muitas maneiras para mudar esse quadro tão injusto, podemos ser cooperadores dessa causa.

Ras André Guimarães
pastor metodista

Adoção: Vencendo os desafios emocionais da fase de aceitação

Adoção: Vencendo os desafios emocionais da fase de aceitação

O Dia Nacional da Adoção é celebrado no Brasil em 25 de maio como uma forma de conscientização sobre a importância dessa ação. A adoção é um ato de escolha e amor, em que tanto adotantes quanto adotado(s) passam por grandes desafios, mas também pode ser imensamente gratificante para ambas as partes.

A perda da família de origem

Geralmente, as crianças e adolescentes que estão inseridos no Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA) estão abrigados em uma instituição por seus direitos terem sido violados ou por questões de orfandade, em que não há mais pessoas da família que possam assumir a responsabilidade por eles, sendo necessário o cumprimento de ações judiciais que visam promover a proteção dos mesmos. Esse procedimento envolve a ruptura não somente da presença, mas também do vínculo familiar e comunitário, o que para estes é confuso de compreender, sendo um fator gerador de sofrimento que implica em um turbilhão de emoções.

A subjetividade infanto-juvenil não está pronta para tamanho luto e trauma, ainda que seja compreendido pelo mundo adulto que aquela decisão é a melhor para sua segurança. A equipe técnica da instituição de acolhimento formada por profissionais tais como: psicólogo, assistente social, pedagogo e educadores, deverá trabalhar as questões individuais de cada criança e adolescente, bem como sobre a proposta de estarem inseridos em um novo contexto familiar através da adoção.

Aceitação de uma nova história…

Podemos dizer que o processo de aceitação na adoção inicia-se antes mesmo do estágio de aproximação e convivência, quando os adotantes tomaram essa decisão e quando a criança e/ou adolescente entendeu a possibilidade de ter uma nova família.

De acordo com Kübler-Ross, autora do livro Sobre a Morte e o Morrer, o luto tem 5 fases: negação, raiva, barganha ou negociação, depressão e por último, aceitação. Essas fases podem ser vividas de forma diferente de acordo com cada indivíduo e não necessariamente nessa ordem. O tempo de vivência dentro de cada estágio também é muito particular. É na aceitação que a criança ou adolescente tem mais tranquilidade e abertura para expressar sobre suas perdas, frustações, medos, e receber melhor a inserção familiar.

A aceitação pode ser demorada para alguns. Envolve aceitar a sua história de vida, o novo modelo parental, a nova realidade social, novas regras, novos ritmos, novo sobrenome, nova identidade. No entanto, do ponto de vista emocional, essas informações também vão formando no indivíduo o senso de pertencimento, o que lhe atribui valor pessoal e consequentemente, retribuição de afeto, podendo levar-lhe a também adotar àquela família como sua, o que é uma resposta positiva e aspecto aguardado e gratificante para os adotantes.

Vinculação, apego e integração

Para que aconteça a formação do vínculo familiar é necessário tempo, confiança e consistência, o que requer paciência, dedicação e amor dos pais para essa construção que não pode ser baseada na própria carência afetiva. Portanto, não é fácil e para que seja mais leve, é indicado a construção de uma rede de apoio formada por profissionais, amigos e a participação em grupos pós adoção.

Sabemos de antemão, que todos nós fomos um dia fomos adotados, o que nos trouxe a possibilidade de sermos chamados filhos e herdeiros de Deus (1Joao 3:1) e este mesmo é o que gera o amor e recursos internos que precisamos.

Depois da superação dos desafios emocionais da aceitação, vem a integração e comprometimento. Já em uma fase mais acomodada e confortável, pais e filhos, vinculados, continuam amando-se mutuamente, apesar de não ser tudo perfeito como em qualquer família. Contudo, na certeza de que vale a pena o esforço e a escolha por adotar, porque é sobre acolher e ser acolhido, amar e ser amado.

Fabiane Nunes Ferreira Queiroz da Silva
Psicóloga com pós-graduação em psicologia clínica; membro de JOCUM – Jovens
Com Uma Missão; multiplicadora do Projeto Calçada – Associação Lifewords Brasil.

Mulheres: Uma Grande Força No Cuidado Emocional Infantil

Mulheres: Uma Grande Força No Cuidado Emocional Infantil

Atualmente, e cada vez mais, estudos científicos na área da saúde mental evidenciam a
importância do cuidado emocional da criança, e repercussões da relação pai-mãe-bebê à
saúde mental infantil e, a longo prazo à de adolescentes e adultos. Dessa forma, diante de tão
vasto assunto, aqui nos propomos introduzir reflexões posteriores sobre tão abrangente
temática.

Nessa reflexão, introduzimos observações sobre aspectos relacionados ao processo de
crescimento e desenvolvimento integral da criança e a relevância do papel das mulheres nesse
processo, mais especificamente, no Cuidado à Saúde Emocional.
Reforço que esse cuidado perpassa, e conecta olhares e saberes integrados à saúde mental
infantil e juvenil. Que indescritível desafio e privilégio! Esse também pode e deve ser
compartilhado com a participação do homem – pai. Pai presente e participativo no cuidado
emocional do filho/a. Bem, mas aqui o nosso foco é: a força da mulher nessa função: Cuidado
Emocional Infantil.

Mulheres no cuidado e proteção

Oportuno enfatizar que me refiro a um CUIDADO QUE PROTEJE, PROMOVE SAÚDE
EMOCIONAL E PREVINE ADOECIMENTOS NA SAÚDE MENTAL. Um cuidado consciente; baseado
em experiências positivas e consistentes; integrado em fatores protetores e promotores ao
crescimento e desenvolvimento total da criança e adolescente; e que corresponde as
demandas de caracteres pessoais e individuais em contextos ambientais do seu cotidiano –
fatores epigenéticos à Saúde Biopsicossocial infantil. DESAFIADOR? Sim, DESAFIADOR!
Contudo, reiteramos a afirmativa do tema – Mulheres: Uma Grande Força No Cuidado
Emocional Infantil!

Ser Mulher ..

Para tanto, o que resumidamente podemos destacar na pessoa da mulher, e com potencial
resposta positiva à tão enfática afirmação?

Ser Mulher – relevância ímpar da criação; ser com diversidade de potencialidades em sua
própria história; potencial participativo e influente no protagonismo pessoal, familiar,
comunitário, social e espiritual. Dessa forma, com potencialidades a serem desabrochadas nas
diversas fases da vida, papéis e desafios de seu ciclo vital – nasce uma mulher! Capacidades
imensuráveis de: virtudes, competências, habilidades, talentos, criatividade, empatia,
determinismo, persistência, resiliência, superação, … compõem uma mulher! Atributos que
urgem serem instrumentalizados em ferramentas uteis, habilidades imprescindíveis no
cuidado à saúde emocional infantil e juvenil.

Um admirável, abrangente cenário de cuidado emocional: a maternidade! Materno e eterno,
marcas que podem transcender o mundo natural (secular), e impactar o sobrenatural
(espiritual), no sentido da referência materna no cuidado à saúde integral e educação à vida
dos filhos. Que imensurável privilégio e tamanha responsabilidade! Assim, requer de nós,
mulheres; muita atenção, dedicação, compromisso, alerta!
E o que pensamos e enfatizamos, sobre a força desse cuidado emocional feminino em
contextos mais ampliados: social, comunitário, espiritual, profissional; indo além do ambiente
familiar, no atual cenário? Aqui refiro ao cenário extremamente desafiador, sobretudo quando
ainda enfrentamos demandas decorrentes da Pandemia Covid-19, impactos impossíveis de mensurar em suas múltiplas dimensões e expressões a curto, médio e longo prazo. Demandas que requerem ações conjuntas, articuladas e interligadas com estratégias de enfrentamento mobilizando todos os setores sociais atuantes no cuidado à saúde mental do público infanto-juvenil e suas famílias. Eu, você, todos convocados/as a entrar, mobilizar, movimentar uma grande rede de atenção e atuação.

Pela abrangência e possíveis desdobramentos do tema, conforme acima referido,
pretendemos continuar nossas observações em reflexões posteriores. Nesse sentido, aqui
focamos atributos do Ser MULHER relacionados à função cuidado emocional. Lembrando
sempre: para o ser integral – a pessoa, sempre se faz necessário um cuidado individualizado –
pessoal e integrado de suas partes (físico, mental, social, espiritual).

Ressalto que: pesquisas têm evidenciado a importância da relação pai-mãe-bebê; que na vida
intrauterina inicia o desenvolvimento de estruturas cerebrais relacionadas a saúde mental; e
que as experiências positivas, de vínculos relacionais seguros até os três anos de idade são
muito mais importantes do que imaginamos à saúde mental da futura criança. E essa pessoa –
criança, é o futuro adolescente, e a longo prazo, um adulto com suas memórias emocionais,
inseridas e compondo sua história de saúde ou adoecimento mental.

Como ser exemplo de mulher

Nesse sentido, vejamos um cuidado que acompanha fases de desenvolvimento de uma
pessoa, um sumário relato, mas percebo como exemplo de mulheres promotoras do
desenvolvimento integral do educando infanto-juvenil: Lóide e Eunice – avó e mãe de
Timóteo. E o que aqui podemos destacar?

Semelhante ao panorama da sociedade atual: são mulheres que marcam, influenciam
positivamente suas vidas, famílias, a vida de seus filhos, netos, comunidade e sociedade,
mulheres que se destacam por seu exemplo de fé, vida digna, cidadania, honradez, caráter,
vida social referenciada. E sobre o poder, a força dessas mulheres (Lóide – avó e Eunice –
mãe)? Elas foram referências nas credenciais de Timóteo para Paulo. Uau! Ilustres,
Extraordinárias Mulheres! Conforme citações em: 2º Timóteo 1.1-7, 1º Timóteo 1.18-19; Atos
16.1-3. 1º Co.4.17

E nós; mães biológicas, mães sociais, educadoras, pessoas direta ou indiretamente
participantes da rotina, do cuidado cotidiano, influentes no processo educativo de uma
criança, adolescente; que história de referência estamos construindo com nossos educandos?
Quais as marcas estão sendo registradas em suas memórias afetivas, sociais e espirituais?
E aprofundando nossa visão e análises, como estamos ajudando construir a árvore genealógica
da saúde integral da nossa família?

É essa árvore que irá alicerçar raízes, estruturar, ramificar, frutificar a genealogia social,
emocional e também espiritual na vida de filhos, netos e famílias sucessoras. Somos seres
tridimensionais, necessitamos crescer de forma integralmente saudável. E isto, requer um
desenvolver salutar das partes do indivíduo – corpo – alma – espiritual e social.
Árvore frondosa é o que normalmente desejamos, sonhamos, queremos em nossas vidas e
famílias. E o que, e como estamos plantando? Quais sementes estão sendo semeadas? Como
adubamos, regamos, cuidamos da plantinha chamada vida do educando, filho, neto, família?
Esse é tempo de despertar, mobilizar nossa maior atenção em ações preventivas e corretivas
junto as nossas crianças!

E ainda, ampliando nossos olhares ao cuidado integral para com os escolares: Nunca como
antes, na história dos PROCESSOS DE EDUCAÇÃO, precisamos estar cientes em nosso papel
como educadores, instrutores prioritários, tutores na educação básica dos filhos. Escola –
ensino, Família – alicerça e, solidifica a educação! A família e a escola devem ser
complementares, interatuantes, organismos parceiros, e não excludentes nos processos
contínuos de desenvolvimento de habilidades emocionais e sociais, ensino e aprendizagens.
Oportuno evidenciar: ao cuidado emocional à faixa etária infantil e juvenil, importa também
continuar a atenção aos aspectos relacionados ao desenvolvimento da espiritualidade.
Imprescindível que haja estratégias coerentes, assertivas e efetivas e, uma caminhada de mãos
dadas (família-igreja, família-escola). É vital, e prudente evitarmos, separar essas mãos
(família-igreja, família-escola). Por vezes, em cenários, onde estes organismos vitais ao
crescimento e desenvolvimento integral do indivíduo atuam em partes isoladas; o educando
(filho, aluno) sente-se solto, confuso, perdido, voando, tal qual uma folha solta. Contexto este
muitíssimo perigoso, onde todos podem sair perdendo, em especial, a criança e adolescente.
Especificamente nesse cuidado, é preciso muita atenção à nossa responsabilidade e
convocação à missão integral com os nossos filhos/as, educandos/as!

O privilégio da mulher ser mãe

Que privilégio, e responsabilidade, Deus confia a cada uma de nós. Assim, quando pensamos,
planejamos e gestamos um/a filho/a, temos o compromisso de buscar em Deus – o autor da
vida, a sabedoria, investir na busca de conhecimentos e desenvolvimento de habilidades e
competências adequadas as necessidades especificas de cada faixa etária e demandas pessoais
e individuais, de forma que: possamos desempenhar com maestria a mais desafiadora,
brilhante e preciosa função feminina – o exercício da maternidade!
E na prática, como desenvolver e quais ações podem promover esse cuidado integral?
Continuaremos com esses desdobramentos em novas reflexões. Assim, até breve, desejando
que cada criança, cada adolescente, em seu ambiente familiar, aonde estiver, ou por onde
passar; desfrutem do CUIDADO que PROTEJE, PREVINE, PROMOVE SAÚDE INTEGRAL!

Joseana de Oliveira Menezes Galvão
Médica com Pós-graduação em Sexualidade Humana, Terapia Familiar, Problemas
Relacionados ao Uso Abusivo de Álcool e Outra Drogas Brasil.
Consultora do Programa Claves Brasil – Programa de Prevenção aos Maus tratos e Promoção
de Bons Tratos em Família – www.clavesbrasil.org
Membro do Conselho da Associação Lifewords Brasil – Projeto Calçada –
www.projetocalcada.org.br

Alienação parental diante da lei

Alienação parental diante da lei

A Lei nº 12.318/2010, em seu art. 2º estabelece o seguinte conceito: “Considera-se ato de alienação parental a interferência na formação psicológica da criança ou adolescente, promovida ou induzida por um dos genitores, pelos avós ou pelos que tenham a criança ou adolescente sob a autoridade, guarda ou vigilância, para que repudie genitor ou que cause prejuízo ao estabelecimento ou à manutenção de vínculos com este”, a partir desta análise há que ser entendida a alienação parental como um distúrbio psíquico grave que afeta o pai ou a mãe, vez que não aceitando o fim de um relacionamento (casamento ou união estável), é incapaz de dialogar de forma amadurecida, e utiliza os filhos como veículos de suas frustrações.
A psicanalista niteroiense Lenita Pacheco Lemos nos ensina que “…a prática da “alienação parental” pode ter origem em diversas causas, resultantes de distúrbios psíquicos, emocionais, relacionais, afetivos, entre outros, mas que não configuram uma doença propriamente dita, uma entidade nosológica que apresente características patológicas específicas.”

Vamos deixar claro que, a alienação parental não se verifica, tão somente, com a separação/divórcio dos genitores, podendo ocorrer, e também é muito comum, durante a constância do casamento/união estável, quando um dos genitores, seja por atitudes ou palavras, denigre, desqualifica, desautoriza o outro diante dos filhos, a ponto destes criarem uma falsa imagem do pai/mãe, como incapaz, inferior, desqualificado, alienado. São atitudes que se avolumam e acabam desaguando na separação/divórcio, e só aí tais atos se tornam do conhecimento geral, mas a
síndrome da alienação parental já está instalada.

Diversas condutas são tipificadas na lei de alienação parental, de forma
exemplificativa, conforme dispõe os incisos I a VII do parágrafo único do art. 2º, a
saber:

art. 2º….. Parágrafo único……
I – realizar campanha de desqualificação da conduta do genitor no exercício da
paternidade ou maternidade;
II – dificultar o exercício da autoridade parental;
III – dificultar contato de criança ou adolescente com genitor;
IV – dificultar o exercício do direito regulamentado de convivência familiar;
V – omitir deliberadamente a genitor informações pessoais relevantes sobre a
criança ou adolescente, inclusive escolares, médicas e alterações de endereço;
VI – apresentar falsa denúncia contra genitor, contra familiares deste ou contra avós,
para obstar ou dificultar a convivência deles com a criança ou adolescente;

VII – mudar o domicílio para local distante, sem justificativa, visando a dificultar a
convivência da criança ou adolescente com o outro genitor, com familiares deste ou
com avós.

Sem dúvida que, no exame de um caso concreto outras condutas podem ser entendidas como alienação parental, identificadas pelo magistrado com base em perícias interdisciplinares.
Com a Lei nº 13.058/2014, que regula o instituto da Guarda Compartilhada, passou a ser a regra, de forma que os pais, finda a conjugalidade, compartilhem de forma equânime, a convivência e todas as responsabilidades afetas à vida dos filhos menores, em igualdade de direitos e obrigações. Contudo, existem pais/mãe resistentes à sua aplicabilidade, se valendo de atitudes escusas, a fim de manipularem emocionalmente os filhos afastando-os do outro genitor não guardião, e de seus familiares, e, muitas das vezes, imputando condutas criminosas, como
agressões físicas/sexuais, com a finalidade de destruir, definitivamente, os vínculos parentais.

A incapacidade dos genitores de dialogarem a respeitos dos interesses dos filhos menores, dificulta o estabelecimento da guarda compartilhada, e abre as portas para a alienação parental, o que acarreta graves prejuízos psíquicos aos filhos.
É importante entendermos que a Síndrome de Alienação Parental (SAP) se instaura a partir do momento em que o menor passa a reproduzir as falas do alienador(a), atribuindo ao outro genitor (ou familiar deste) as supostas agressões físicas/sexuais.

O psiquiatra e pesquisador Richard A. Gardner foi o primeiro que conceituou a SAP e o fez da seguinte forma:

“A síndrome de alienação parental (SAP) é uma disfunção que surge primeiro no contexto das disputas de guarda. Sua primeira manifestação é a campanha que se faz para denegrir um dos pais, uma campanha sem nenhuma justificativa. É resultante da combinação de doutrinações programadas de um dos pais (lavagem cerebral) e as próprias contribuições da criança para a vilificação do pai alvo.”

Os malefícios da SAP afetam os menores em formação, trazendo sequelas desde a infância até a vida adulta, daí a necessidade de se reconhecer a prática da alienação parental, e estabelecer tratamento psicológico e psiquiátrico, para os infantes e também para os pais.

Como já dito a alienação parental impede uma convivência social e afetiva salutar da criança com o pai/a mãe e demais familiares, sendo equiparada pela lei ao abuso moral, desenvolvendo sentimentos negativos que lhes são passados pelo alienador(a), e o reflexo disto passa a ser observado desde a tenra idade pelo comportamento em casa e na escola, no convívio com os amigos, que vai da inibição demasiada, desatenção nas aulas, revolta, agressão, até a vida adulta, repetindo os mesmos erros do genitor alienador, se refugiando nas drogas,
cometendo ilícitos sociais, morais e criminais.

Em algumas vezes ao chegar na fase adulta, normalmente com o auxílio de terapeutas, psicólogos, passa a enxergar a verdadeira pessoa do pai/mãe alienado, e um sentimento misto de frustração e revolta tomam conta da pessoa, e às vezes ainda dá tempo de se reconciliar, mas em outras não mais.

A alienação parental dever ser analisada com muita cautela, pois estamos aqui falando do alienador, de quanto mal pode ser causado à criança, mas também ao alienado, porém, quando estivermos diante de caso que envolva agressão física/sexual é imprescindível a atuação de equipe interdisciplinar – assistentes sociais, psicólogos, psiquiatras, para apuração da realidade, pois as consequências são catastróficas para o menor, mas também para aquele a quem forem, falsamente, imputadas tais condutas. A sociedade não perdoa, ela julga e condena sem que os
fatos sejam devidamente apurados. O sensacionalismo fala mais alto e o prejuízo é irreversível.

O magistrado ao aplicar as sansões determinadas na lei penalizando o abuso de poder do guardião alienador, deve fazê-lo com critério, considerando que o caráter é mais pedagógico do que punitivo, mas é fundamental assegurar a convivência parental e restabelecer os laços afetivos da criança com o outro genitor e/ou seus familiares. O direito de convivência é da criança e também dos pais, e é garantia constitucional.

Existem Projetos de Leis do Senado para regular, normatizar e criminalizar e dar novos caminhos à alienação parental, tema complexo e polêmico, exigindo mais estudos e debates.

Bárbara Alcântara Augusto Pereira, advogada, professora universitária Ucam,
membro do IBDFAM – Instituto Brasileiro de Direito de Família
Instagram: @ucam.oficial

Alienação parental: os perigos emocionais para crianças e adolescentes

Alienação parental: os perigos emocionais para crianças e adolescentes

Para entender melhor os perigos emocionais da alienação parental é necessário compreendermos como se dá o desenvolvimento humano. Vygotsky (1930/1996) ressalta que através da aprendizagem e das interações dos agentes mediadores de cultura, (pais, professores, etc.) o sujeito que está em processo de aprendizagem se desenvolve pessoalmente.

Desenvolvimento cultural

desenvolvimento cultural da criança é caracterizada pela lei da dupla formação dos processos psicológicos superiores (desenvolvimento da linguagem, atenção, memoria, raciocínio, formação de conceitos…), tanto a nível interpsicológico quanto a nível intrapsicológico. Essa internalização é feita através das construções sócias e sua reconstrução individual, a interação da criança com os adultos e agentes mediadores concretiza a internalização (VYGOTSKY, 1930/1996).

Também, considerado o ambiente, mais crendo nas emoções e pensamentos, o cognitivismo considera que a noção de esquemas cognitivos é central para a terapia e a teoria cognitivas (Lopes, E., Lopes, R. & Lobato, 2006). A teoria considera que a personalidade é criada por valores centrais que se desenvolvem bem cedo na vida do
indivíduo como resultado da relação de determinismo recíproco entre ambiente, as características e o comportamento do indivíduo (Bandura, 1979).

A história de vida do indivíduo e suas características individuais criam os chamados esquemas cognitivos ainda bem cedo na vida, a relação com o ambiente através dos estímulos externos e internos são responsáveis pela criação das crenças que estabeleceram os valores individuais de cada um. Esse conjunto de fatores serão responsáveis pelo comportamento e emoções dos indivíduos ao longo da sua vida (Beck& Freeman, 1993).

Como podemos comprovar, mediante as afirmações dos teóricos aqui citados, o desenvolvimento do ser humano se dá através da sua interação com o meio ao seu redor, desenvolvendo sua subjetividade através das relações no meio em que vive. Esse desenvolvimento tem seu início já nos primeiros dias de vida quando o recém-nascido já começa sua interação com o mundo externo na relação com os pais, o amamentar, o carinho demonstrado através de beijos e abraços, as falas dos pais na manifestação de amor e cuidado.

Ao longo de seu crescimento essa criança irá se desenvolver dentro de um contexto social em que as figuras dos pais serão um referencial para sua vida até a fase adulta. Ainda na primeira infância, segunda a psicologia cognitiva comportamental, a criança irá desenvolver suas primeiras crenças nucleares que serão responsáveis por todo um esquema cognitivo que determinará seus comportamentos, emoções e reações fisiológicas ao logo de toda sua vida.
Portanto a figura dos pais é responsável pelo desenvolvimento da saúde mental de seus filhos. Quando essa figura, que deveria ser de cuidado e proteção, é denegrida os riscos de crianças e adolescentes desenvolverem crenças desequilibradas é alto.

Alienação parental

Quando um dos pais influencia o filho, criança ou adolescente, a repudiar o outro genitor, caracterizando assim a alienação parental, ele está desfazendo a figura referencial que essa criança ou adolescente tem, a figura do pai ou da mãe são referências para seu desenvolvimento, esse desenvolvimento pode ser saudável ou não dependendo de como será o ambiente.

É muito importante que as pessoas ao redor de crianças e adolescentes que estão passando por uma situação em que seja constatada a prática da alienação parental não fiquem de braços cruzados, é necessário que providencias sejam tomadas no intuito de preservar o desenvolvimento cognitivo e emocional dessa criança e adolescente, zelando assim por sua saúde mental.

Portanto sabedores da importância das figuras do pai e da mãe como referências do desenvolvimento de crianças e adolescentes, é de suma importância a preservação da imagem de cada um deles como símbolos de amor, proteção e valor. A alienação parental destrói esses valores sendo responsável pela criação de crenças desequilibradas geradoras de pensamentos mau adaptativos e consequentemente o aparecimento de transtornos psicológicos.

Glauber Mascarenhas psicólogo CRP 124752/06

“Não tenho medo, porque eu creio em Deus”

“Não tenho medo, porque eu creio em Deus”

A missionária Hilda Dias da Silveira, que atua na  ilha do Bananal, aldeia Macauba localizada em Tocantins/TO, compartilhou um pouco da experiência de atuar com crianças indígenas. 

Iniciei o trabalho na região no dia 20 de janeiro de 1983, pois ouvia muito sobre o trabalho ali e decidi ser missionária naquele lugar. A primeira dificuldade que enfrentei foi o desconhecimento da cultura, costumes e a língua do povo.

Hoje conhecendo mais do povo Carajás, da aldeia onde atuo, a dificuldade é a falta de missionários, visitas raras para ajudar no trabalho. Eles  são um povo que apreciam visitas.

O trabalho com as crianças

O trabalho com as crianças têm bastante relevância pois no costume Carajá as crianças são o bem uterino. Para iniciar o trabalho com as crianças indígenas deve-se conhecer a cultura, o costume e língua do povo.

Quando eu já me comunicava bem com as crianças, contei a elas a respeito do poder de Deus e comecei a falar sobre ressurreição. Contei que Deus é poderoso, que não há poder igual o de Deus, não há  um ser igual a Deus. Como  Carajás, eles têm medo da alma daquele que morre, pois acreditam que quando a pessoa morre, após três dias ressuscitam e voltam às casas, com isso ficam sempre atemorizados. Então falei para as crianças que após o falecimento de alguém, não precisavam ter medo do morto, porque o morto não volta. Expliquei o poder de Deus e falei que nós temos um inimigo, como eles já conheciam a história eu apenas relembrei a história do inimigo que desafiou a Deus e foi lançado no lago de fogo e que esse inimigo quer fazer de tudo para destruir o homem “para o homem ir para o lago de fogo junto de satanás e não ficar com  Deus.” 

Disse que esse é o desejo dele, que veio para matar e destruir o que Deus criou, o homem que Deus ama tanto. E aí falei que ele engana as pessoas, então quando alguém morre, ele engana fazendo com que eles ouçam barulhos e vozes para que sintam medo. Então falei que eles não precisam acreditar em fantasmas, que eles chamam na linguagem deles de uni, falei que o uni, o satanás,  os engana, fazendo barulhos, derrubando coisas… Esses são relatos que me contam  quando morre alguém, eu disse que é o inimigo das nossas almas que faz tudo isso para amedrontá-los. 

Passaram-se alguns dias e eu encontrei um menino com seus 11 anos de idade pescando lá longe no rio e sozinho na canoa. O nome dele era Melque* e eu fui até ele e falei: Melque, você está sozinho aqui no rio? Sem nenhuma companhia, nenhum amiguinho? Pescando.. você não tem medo? Quando eu falei medo eu pensei em animais peçonhentos, ou até mesmo aquele peixe piranha que corta o dedo da pessoa, de repente a pessoa pesca e pode dar um corte, esse tipo de medo. E ele me respondeu: Não, Hilda, eu não tenho medo, porque uni não existe… é satanás que quer enganar as pessoas e eu não tenho medo, porque eu creio em Deus. Achei isso muito bonito e interessante, porque ele entendeu muito bem a palavra de Deus.

*nome fictício para proteger a criança

Hilda Dias da Silveira,
missionária na Aldeia Macauba 

Esteja em oração pela vida dos missionários que atuam em aldeias indígenas para que mais crianças e adolescentes sejam livres do medo. 

A Bolsa Verde ao redor do mundo

A Bolsa Verde ao redor do mundo

A Bolsa Verde ao redor do mundo

Nesses meses de fevereiro e março o Projeto Calçada está ampliando o alcance de pessoas capacitadas para a utilização da Bolsa Verde. São sete países envolvidos e mais de 20 educadores em treinamento.

A capacitação com a Bolsa Verde consiste em apresentar, ensinar e exemplificar a utilização do material. A Bolsa Verde é uma ferramenta exclusiva, desenvolvida pelo Projeto Calçada, e aplicada por organizações parceiras. Ela contém peças desenhadas para abordar os problemas específicos que as crianças e adolescentes enfrentam, ajudando-os a compartilhar suas histórias de traumas e dores, a partir de uma reflexão de personagens de histórias bíblicas.

Nesses meses de fevereiro e março já foram seis capacitações de 25 educadores de sete países: Angola, Bolívia, Brasil, El Salvador, Índia, Indonésia e México.

Cremos que ao longo deste ano mais pessoas e mais países serão alcançados pela esperança, a graça e o amor de Jesus, por meio da capacitação.

Seja um(a) Educador(a)

Se você trabalha com crianças e adolescentes em situação de risco social, você tem muito potencial para se tornar um/a Educador/a do Projeto Calçada. Alguns dos requisitos são: estar trabalhando com crianças em situação de risco e em um ambiente e função onde a atividade individual com crianças seja adequada; ser emocionalmente maduro/a para lidar com as histórias de trauma das crianças; com oportunidade/tempo suficiente para aconselhar crianças regularmente; estar disponível para participar integralmente da capacitação.

Escreva para contato@projetocalcada.org.br e saiba mais.

Vamos brincar!

Vamos brincar!

Brincar é coisa séria ou simplesmente um passa tempo? Depende de como compreendemos o brincar. Para a criança brincar é coisa séria, já para um adulto pode ser visto como uma ação de tempo livre, sem intencionalidade. Mas, lembre-se de seu tempo de criança em que você brincava. Quais os sentimentos que você experimentava? Normalmente sentimentos de liberdade e prazer.

As pesquisas e as práticas educacionais têm evidenciado que as atividades lúdicas, os jogos, as brincadeiras, oportunizam o desenvolvimento das aprendizagens cognitivas e socioemocionais, facilitando assim os mais variados processos de expressão, comunicação, socialização, construção do conhecimento, além do desenvolvimento psicomotor. No entanto, no espaço escolar o brincar não recebe seu valor educativo metodológico, sendo atribuído ao segundo plano, nos momentos “livres”.

Para melhor compreender a importância do brincar para o desenvolvimento da criança faz-se necessário entender o que é brincar. A brincadeira é a ação de brincar e para Almeida (2007 p. 26), […] é fruto da tradição cultural oral, da observação, da heterogeneidade e da diversidade de atividades oferecidas pela cultura lúdica do meio ou pela criação e representação espontânea construída a partir de necessidades naturais do ser, sejam elas biológicas (físicas), cognitivas (mentais), psicológicas (afetivas, emocionais, de atenção ou de concentração), sociais (relativas ao grupo social), lingüísticas (relacionadas à linguagem) ou culturais (afeitas às questões contextuais).

No que tange ao aspecto de desenvolvimento da criança, o jogo oferece contribuição em vários aspectos, Vygotsky (1984) , De Aguiar (2004), Kishimoto, (2010) e Santos (2000 abrem o leque de benefícios obtidos no ato de brincar afirmando que é brincando, jogando que a criança experimenta o poder de explorar o mundo e revela seu estado cognitivo, visual, auditivo, tátil, motor, seu modo de aprender e de entrar em relação cognitiva com o meio, os eventos, pessoas, coisas, símbolos e adquire a maior parte de seus repertórios e consequentemente seu desenvolvimento físico, cognitivos, emocionais, sociais e motoras.

Já o lúdico pode está presente no jogo e na brincadeira mas ele não se restringe as essas duas áreas de atividades. Ele vai além, tomando outras dimensões da vida humana que abordam a criatividade e o prazer. Partindo desse entendimento, o lúdico expõe o sentido de uma ação, de como a pessoa vai agir em relação ao objeto e com os pares no ato de manipular, criar, encaixar, experimentar, imitar, entre outras ações que tenham uma significação, de acordo com a motivação dos diferentes indivíduos.

A ação de brincar proporciona o desenvolvimento integral da criança devido a íntima conexão de todas as dimensões que compõem o ser humano e para melhor proveito, o brincar com intencionalidade contribue para o desenvolvimento de áreas específicas de modo que podem influenciar as demais dimensões do ser humano. Através de jogos simples empregados com intencionalidade pode-se favorecer o desenvolvimento em duas áreas importantes para a criança.

Desenvolvimento social: O jogo é espontâneo, motivador, universal e inerente a cada criança. O jogo potencializa a interação na medida em que possibilita novos contatos e construções colaborativas algo essencial na dinâmica de socialização. As conexões que o brincar e o jogo oportunizam, propicia a superação do egocentrismo, desenvolvendo a solidariedade e a empatia, especialmente no compartilhamento de jogos e brinquedos. Serrão, (1999,P.99) afirma: “A sociabilidade das brincadeiras e jogos permitem que se crie laços emocionais, integração produtiva e unidade de grupo.”

Faça uma lista de jogos sociais levando em conta os aspectos sócios culturais do contexto e incorpore na rotina da sua classe e da sua família, para o desenvolvimento das crianças que estão em volta. Surgiro uma lista sucinta a título de exemplo.

Jogos de representação: jogos simbólicos, dramáticos, ficção, etc

Jogos de imitar: imitar o andar ou pular dos animais (elefante, coelho, sapo, canguru). Imitar os meios de transportes. Brincar de: profissões (médico, dentista, bombeiro, cozinheiro etc), de casinha… utilizando o mesmo objeto (brinquedo) em situações diferentes, assim explorando o imaginário da criança. Jogos de advinhação e mímica.

Jogos de regras: jogo da memória, o gato e o rato, boliche e pique bandeira.

Jogos cooperativos: promovem as condutas pró-sociais (ajudar, cooperar, compartilhar, etc.). Esporte cooperativo: futebol, vôlei, handeball. Cabo de guerra e escravos de Jó etc.

Desenvolvimento psicomotor: Para LIEVRE e STAES, ( 2000, p 10 ) O homem é um ser psicomotor: cada um de seus atos testemunha a manifestação conjunta de suas funções intelectuais, emocionais e motoras. O desenvolvimento psicomotor é o desenvolvimento da criança nas áreas de: habilidades motoras, consciência de si mesmo e do próprio corpo, a relação com os outros, consciência de seu ambiente espacial e temporal e das possibilidades de adaptação a ele.

O desenvolvimento psicomotor é de importância primordial na prevenção de problemas de aprendizagem e na reabilitação do tônus muscular, postura, lateralidade e ritmo. Isso porque, a criança ao se desenvolver fisicamente, com a ajuda do jogo, aprende a correr, pular, saltar, se relacionar, controlar seus sentimentos no meio social de convívio. A criança, cujo desenvolvimento psicomotor é deficiente pode ter problemas de escrita, leitura, direção gráfica, distinção de letras (por exemplo, b/d), ordem de sílaba, pensamento abstrato (matemática), etc.

Desenvolva jogos psicomotores como: jogo de estátua, corrida de saco, pular corda, amarelinha, correr sob comando (correr rápido, correr com um pé só), corrida com obstáculo etc. Dançar variados ritmos batendo palmas, dança da cadeira, basket (lançar a bola no cesto), brincar de bambolê, fazer um percuso: andar sobre uma corda reta, atravessar o túnel, subir e descer uma escada etc.

Muitos são os beneficios que as atividades lúdicas, jogos e brincadeiras proporcionam ao indivíduo que as praticam. Em contrapartida há também problemas que surgem devido a falta ou pouca exploração desse domínio. Para Teles (1997,p.13) há algumas consequências em torno da falta do brincar na infância que leva a criança a desenvolver determinadas posturas como: a falsidade, a dissimulação, a agressividade, o desajustamento sexual, vícios, neuroses, falta de iniciativa, isolamento, timidez, preguiça ou lentidão, falta de criatividade.

No momento do jogo as crianças colaboram entre si, partilham se divertem desenvolvem atitudes de solidariedade, respeito, exercitam a imaginação, os sentidos, o corpo e constroem novos conhecimentos. Isso possibilita a formação de cada indivíduo livre de preconceito. É fundamental que o educador assuma um papel de mediador, auxiliando a criança nas atividades lúdicas para a construção de um conhecimento significativo. Então, vamos brincar!
Escrito por José Ricardo Santos – Bacharel em Teologia- FATIN, Licenciatura em Ciências da Educação Universidade Católica de Dijon, Pós graduação em Gestão e docência pela PUC-PR.


Referências bibliográficas
ALMEIDA, P. N. de. Língua portuguesa e ludicidade: ensinar brincando não é brincar de ensinar. São Paulo: dissertação de mestrado. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP, 2007.
KYSHOMOTO, Tizuko Morchida. Brinquedo e Brincadeiras na Educação Infantil. Anais do I Seminário Nacional: Currículo Em Movimento. Belo Horizonte: Perspectivas Atuais, Nov.2010
SANTOS, Santa Marli Pires dos. Brinquedoteca: o lúdico em diferentes contextos.Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 1997.
SERRÃO, M. Aprendendo a ser e a conviver. São Paulo: FTD,1999.
TELES, Maria Luiza Silveira. Socorro! É proibido brincar! Petrópolis: Vozes, 1997.
VYGOTSKY – Aprendizado e desenvolvimento Um processo sócio-histórico. São Paulo: Scipione, 1998.

Entre sonhos e realidades: um olhar para a infância

Entre sonhos e realidades: um olhar para a infância

“Cada criança deveria ter uma placa dizendo:
Trate com cuidado, contém sonhos!”

Mirko Badiale

“Quando eu crescer quero ser… Bombeiro! Professor! Doutor! Policial!” foram os sonhos que nossos meninos e meninas compartilharam antes da pandemia da COVID-19. Um ano depois da pandemia, se considerarmos as conclusões do relatório “Acessibilidade da Educação à Distância” (The Remote Learning Reachability), a partir do fechamento das escolas, desde março de 2020, são 463 milhões de crianças em idade escolar afetadas (UNICEF, 2020), as causas são múltiplas, mas a principal é o acesso à educação a distância, que a grande maioria dos países considerou como uma ação alternativa para que pudessem continuar com as aulas.

O relatório da UNICEF destaca as condições de acessibilidade à internet em famílias de baixa renda, o que representa 72% e mesmo em famílias de renda média-alta, 86% dos alunos não têm acesso, já que grande parte deles vive em áreas rurais. É claro que os menores são os mais afetados, pois representam 70% (120 milhões de crianças) sem acesso remoto por rádio, televisão ou internet, com programas pouco eficazes de educação virtual; formação emergente de professores e nula para mães ou pais, bem como materiais adequados para o lar. Meninos e meninas do ensino primário estão nas mesmas condições e representam 29%, ou seja, 217 milhões de alunos.

Os alunos do ensino fundamental 1, que representam 24% (78 milhões, juntamente com 18% (48 milhões) do ensino fundamental 2, apresentam as mesmas situações, acrescentando ainda o pouco apoio em casa que ambos os pais lhes podem oferecer, pela complexidade das questões, que para muitos deles representa, principalmente se tiverem apenas o ensino primário ou o ensino fundamental, especialmente em países com altos índices de analfabetismo.

O isolamento tem trazido repercussões para um número crescente de crianças e adolescentes por serem submetidos à violência doméstica vinculada ao aprendizado em casa, por parte da mãe, maiormente. Por isso, é importante unir esforços para sensibilizar, tanto as mães quanto os pais, para que realizem o acompanhamento educacional dos filhos e filhas com amor e ternura. Vamos motivar nossos professores e professoras a assumirem, com responsabilidade, sua formação virtual, para que desenvolvam aprendizagens altamente significativas e compreendam a lógica da educação virtual ao não saturar os alunos e alunas com tarefas e atividades sem sentido.

Pais e mães, ouçamos atentamente estas belas palavras:

“Instrua a criança segundo os objetivos que você tem para ela, e mesmo com o passar dos anos não se desviará deles.” Provérbios 22:6 (NVI);

Vamos educar nos ensinamentos para uma vida de amor e serviço; vamos aproveitar este tempo em casa para reforçar nas nossas crianças e adolescentes, atitudes e valores de autoestudo, responsabilidade, organização, atenção, habilidades digitais e de estudo, capacidade criativa, entre outras, que lhes permitirão, diante dessa realidade dolorosa, continuarem sonhando para construir novos sonhos através de um projeto de vida familiar. Lembre-se que projetos e sonhos nascem em casa, envolvendo todo o ambiente.

Esforcemo-nos para que nossos sonhos se tornem realidade, porque a cada dia colocamos um grãozinho de areia de esforço, dedicação e disciplina:

“Seja forte e corajoso! Não se apavore, nem desanime, pois o SENHOR, o seu Deus, estará com você por onde você andar”. Josué 1:9 (NTLH).

Coragem! Vamos nos preparar para voltar às aulas com um projeto de vida e com sonhos renovados para sermos uma humanidade melhor, porque melhorar as condições atuais da infância e da adolescência exige pessoas com novo vigor, conhecimento e responsabilidade. E essa pessoa é você!

Escritor por Leticia Ramírez Rodríguez – Mexicana, voluntária do Projeto Calçada. Professora em Produção Editorial pelo Instituto de Investigação em Ciências Humanas e Sociais IIHCS e pela Faculdade de Letras da UAEM; Estagiária do Mestrado em Desenvolvimento Educacional e Inovação da UPN; Licenciada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia e Letras da UNAM; Estagiária do Mestrado em Ciências Bíblicas pela Comunidade Teológica do México.


Fontes de consulta
Bible Gateway (2021). Consultado el 14 de marzo de 2021.
UNICEF (2021). COVID-19: Are children able to continue learning during school closures? Consultado el 13 de
marzo de 2021.
UNICEF (2020). “Una tercera parte de los niños…”  Consultado el 13 de
marzo de 2021.

“obrigado Deus porque você me deu amigos!”

“obrigado Deus porque você me deu amigos!”

Fernando* tem 12 anos, mas eu o conheci quando tinha apenas 5 anos, e começou a frequentar as atividades que a igreja realiza com as crianças do bairro onde ele morava, na periferia de Lima, Peru. Sua mãe luta sozinha para sustentar seus filhos, em uma situação limitada de recursos econômicos. Quando começou a participar das atividades, Fernando tinha um comportamento agressivo e violento. No bairro as crianças brincavam juntas na rua, mas Fernando era excluído, porque sempre brigava. Ele não conseguia controlar seu temperamento e isso tornava difícil o relacionamento com as crianças da vizinhança.

 
Quando estava na igreja os problemas eram os mesmos, ele batia nas outras crianças, queria sempre brincar de luta, e por causa disso, diziam que ele não deveria estar lá. Embora fosse difícil para a equipe lidar com a agressividade do Fernando, nem mesmo consideramos proibi-lo de participar, porque todos nós merecemos a graça e a misericórdia de nosso amado Criador. Fernando foi ficando cada vez mais violento, havia muita raiva no seu interior e ele descontava nas crianças mais novas, causando reclamação das mães. Oramos pedindo ao Senhor Todo-Poderoso que nos desse uma solução ou estratégia para acalmar o temperamento do Fernando, que não melhorava com a imposição de regras, porque ele não tinha o menor respeito pelas regras, pois criava as suas próprias.

 
Um dia decidimos fazer uma festa surpresa porque era o seu aniversário, muitos reclamaram dizendo estávamos recompensando seu mau comportamento, mas na realidade queríamos que ele se sentisse amado e, acima de tudo, que sentisse o amor de Deus, aquele amor que o mundo não pode dar. Na hora de cortar o bolo, perguntamos se ele queria orar, e me lembro que a voz dele falhou. Com a voz embargada ele disse: obrigado Deus porque você me deu amigos. A partir daquela data a amizade com os meninos do bairro melhorou, Fernando continuou com o temperamento difícil, mas tínhamos conseguido que os outros meninos o considerassem amigo, isso deveria ajudar.

 

Em uma conferência missionária ouvi falar sobre o Projeto Calçada e percebi que era o que precisávamos para as crianças da igreja. Foi uma expectativa até que a capacitação acontecesse. No primeiro aconselhamento com a Bolsa Verde Fernando, que já tinha 7 anos, contou como sentia raiva, porque sua mãe batia nele. Ele disse: sinto raiva, como um urso que quer atacar. Começamos a entender os motivos por trás da sua agressividade. No final aquele encontro Fernando desenhou- se ao lado de Jesus, e disse que se sentia feliz porque Jesus o cuida e protege. Nas semanas seguintes percebemos mudanças positivas no seu comportamento, fez amigos e sua agressividade diminuiu. Mas a vida continuava difícil para ele, porque não tinha um pai ao seu lado, e sua mãe trabalhava muito e não podia cuidar adequadamente dele e dos irmãos. Ainda notando que ele precisava de ajuda, fiz outro aconselhamento com a Bolsa Verde alguns meses depois, e vi o maravilhoso poder de Jesus curar suas feridas e seu lindo coração.

 

Quando Fernando tinha 10 anos, estava entrando na adolescência e começou a ter problemas. A Bolsa Verde novamente o ajudou a abrir seu coração e foi um canal do amor de Deus para Fernando. Quando estávamos terminando aquele encontro ele disse que se sentia forte como um leão, que se sentia seguro e que confiava em Deus. Sua mãe me agradeceu muito e disse que seu filho estava apresentando grandes mudanças.

 

Hoje Fernando não mora mais no bairro onde trabalhamos com as crianças, pois sua mãe achou conveniente levá-lo para um lugar com melhores condições para ele crescer, além disso, a situação econômica da família também melhorou. Fico emocionada de dizer que hoje ele é um adolescente de 12 anos com objetivos claros e muito gentil, o Fernando agressivo ficou no passado. Ele disse que quer ajudar outras crianças que passaram pelo que ele passou, que essa é sua maneira de agradecer a Deus por tudo o que vem construindo em sua vida.

 


Escrita por Cleisse Andrade com a colaboração da educadora que teve seu nome preservado por questões de proteção à criança.

*O nome da criança é um pseudônimo para proteção de sua identidade.